UM ITAPECERICANO DE CORAÇÃO
Por José Maurício Penna
No dia 5 de março de 1886, um jovem de Entre Rios de Minas Gerais
colava grau na Faculdade de Direito da Cidade de São Paulo, ou
seja, nas vetustas arcadas do Largo de São Francisco, cujo diretor
era, na época, o Conselheiro André Augusto de Pádua
Fleury. O ato foi presidido pelo Presidente da Província, João
Pereira Monteiro. Algum tempo depois, nomeado pelo Imperador Pedro II,
ele chegava ao Tamanduá para assumir o cargo de Juiz Municipal.
Seu nome Antonio Ribeiro Penna, filho do Comendador José Joaquim
de Oliveira Penna e de Anna Ribeiro Penna.
Levou consigo o mano Lafayette. No Tamanduá, os simpáticos
e elegantes rapazes logo se apaixonaram por duas lindas moças,
também irmãs, filhas de Severo Mendes dos Santos Ribeiro,
Juiz de Direito, talvez já aposentado, que passara pelas comarcas
de Araxá e Turvo (hoje Andrelândia), e sua esposa Maria
Antunes. O Antonio – que para os inúmeros amigos era só o
Tonico – casou-se com a Alzira, conhecida como Nhanhá. O
Lafayette, com a Maria Carmelita, cujo apelido era Minica.
Como devia ser bela e romântica a Tamanduá do final do século
XIX! Uma pequena vila que, pouco tempo antes ganhara o foro de cidade,
com suas ruas formando graciosas curvas, calçadas de grandes pedras,
terminando no sopé de morros arredondados, cobertos de árvores,
plantações e pastagens. A igreja matriz de São Bento
ainda em obras; a de São Francisco, linda em seu estilo jesuítico;
a do Rosário, ainda ostentando uma fachada colonial. Outras, ainda,
que desapareceram, como a de Santa Rita de Cássia e a de São
Miguel, no cemitério. A linha férrea tinha sido inaugurada
então. As locomotivas novas em folha chegavam arrastando vagões,
ainda cheirando a tinta na “estação velha”.
Aí toda a população vinha, à tarde, esperar
os que chegavam, passando por uma longa fila de carroças e carros-de-boi
que traziam os produtos da região para serem embarcados.
Fechemos os olhos e deixemo-nos embalar pela fantasia. Veremos Antonio
e Lafayette cavalgando por aqueles campos e vales ou caminhando naquelas
ruas, sempre acompanhados dos amigos e companheiros, conversando sobre
as sinhás donas, de saias bordadas espartilhos, leques nas mãos,
de olhares apaixonados para os jovens galantes.
E o Rio Vermelho, ainda sem poluição corria tranqüilo
no fundo daquele vale feliz...
Os dois irmãos casaram-se com as respectivas amadas. Lafayette
e Maria Carmelita tiveram seis filhos. Dois morreram na infância:
Maria Clara e Waldemar. Os outros sobreviveram e constituíram
suas famílias: José, Margarida, Letícia e outro
Waldemar. Hoje só resta a Letícia.
Lafayette, porém, tinha a saúde frágil. Era diabético
e não havia tratamento para seu mal, na época. Morreu moço.
Por sua vez, Tonico e Nhanhá não tiveram filhos. Tomaram,
então, o encargo de criar como seus os sobrinhos.
Para nós, filhos e netos adotivos, que os chamávamos Dindinho
e Titia, respectivamente, eram símbolos de serena autoridade.
Sua morada, em Itapecerica, no começo da Rua do Arranca-Toco,
era uma chácara dentro da cidade. Um quintal enorme, cheio de árvores
frutíferas, onde não se via mato ou uma fruta apodrecida
no chão, era sempre varrido e capinado. A casa, velha e modesta,
não tinha um objeto fora de seu respectivo lugar. Tudo era ordem,
limpeza e disciplina, retratando a figura austera dos donos, As refeições
eram feitas rigorosamente na hora certa.
Quando meu pai, José Ribeiro Penna, veio para Belo Horizonte estudar,
as férias eram sempre passadas em Itapecerica. Nas do fim do ano, íamos
antes do Natal. No dia 6 de janeiro, Epifania do Senhor, havia uma grande
festa: era o aniversário da Titia, a grande reunião familiar.
Poucos terão amado Itapecerica como Antonio Ribeiro Penna. Juiz
Municipal durante certo tempo, também foi titular do termo anexo
de Divinópolis. Poderia ter feito carreira na magistratura como
o sogro. Talvez tivesse até chance de ser Desembargador. Não
quis, para isso teria de sair de sua querida cidade. Preferiu continuar
na terra de sua esposa, cunhados e sobrinhos. Pediu demissão e
foi advogar. Até a morte.
Meu pai dizia que se o Dindinho tivesse tido um filho, este não
seria tão parecido com ele como eu era. A única diferença:
ele era pão-duro e eu mão aberta. É que todos o
julgavam avarento, mas esta foi a maior injustiça já cometida.
Prova está no livro do Padre Gil e do Constantino – “Itapecerica,
sua fé, sua música”. Lá se vê, na página
83, que ele concorreu com uma esmola superior a 1:000$00 para a igreja
matriz, uma obra que custou 300:000$00 (pág. 82) ao longo de quase
cem anos. Doou, também seis mudas de palmeira para serem plantadas
no largo em frente no valor de 23$500, no dia 9 de janeiro de 1906 (pág.
89). Ironia do destino: seu cunhado Severo Mendes dos Santos Ribeiro,
quando presidente da câmara, abateu essas preciosas árvores.
Se Antonio foi econômico, devemos nos lembrar de que não
havia naquele tempo previdência social. Era preciso ter-se uma
reserva para quando não se pudesse mais trabalhar...
Dele se conta um caso curioso: certa vez, foi consultar um médico.
Este lhe disse que ele sofria do coração. O valente Tonico
tinha, na época, um sítio perto do Morro do Calado. Montou
no seu cavalo mais fogoso, foi até o alto e de lá disparou,
serra abaixo. Chegando em casa, suado e ofegante, apeou e disse para
a mulher, aflita com a ausência inesperada do marido: “Você acha
que, se eu sofresse do coração, teria agüentado esse
galope, Nhanhá?”
Vinha o casal de vez em quando a Belo Horizonte, hospedando-se na casa
de meus avós maternos, na Rua Gonçalves Dias. De certa
feita, a Titia sofreu uma queda e fraturou a perna. Voltaram para Itapecerica.
Ela já estava andando novamente, quando caiu outra vez. Pouco
tempo depois morria. Isso foi em 1941.
O falecimento da querida Nhanhá deixou Tonico muito abatido e
inconformado. Quando eu já estava na Faculdade de Direito e ia
a Itapecerica, convidava-o a vir a Belo Horizonte, dar um passeio e se
espairecer. Ele dizia: “Na sua formatura, se eu estiver bem, irei”.
Nunca mais veio, porém. Em 1948, sofreu um primeiro derrame cerebral,
mas se recuperou. Ao segundo, vendo que não mais ficaria bom,
compreendeu que a morte se aproximava. A paralisia o afetou, de maneira
que não podia ingerir alimentos. Isso dava a impressão
de que ele se recusava a comer e tomar medicamentos, como se desejando
o fim. Naquele tempo, havia, ainda, poucos recursos, o que, de certa
maneira, foi bom, pois sem essa parafernália de sondas, soros
e oxigênio de hoje, não sofreu muito e foi logo ao encontro
de sua Nhanhá.
Foi o fim de um grande homem, que amou muito sua cidade adotiva. Isso
a ponto de dizer, quando meu pai foi eleito deputado estadual pela primeira
vez: “Que bom, ele vai fazer muita coisa por Itapecerica!” Não
pensou, então, na família nem nos amigos. Só na
comunidade.
(texto publicado no Jornal Tamanduá)
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