Um pouco da história de Itapecerica

Em 1693, Antonio Rodrigues Arzão, saindo de Taubaté transpôs a Mantiqueira chegando a Ibituruna. De lá entrou pelos sertões, chegando a Pitangui na borda da terra da Conquista, embrenhou-se por estas terras e veio ter a uma localidade então conhecida como Casa Casca do Tamanduá. Foi este o primeiro registro do topônimo Tamanduá, como local conhecido. A citação anterior do mestre Diogo, refere-se vagamente "para além das fronteiras dos países de Tamanduá e do Pi-ui" sem determinar se na época a região já era conhecida por este nome. (Lazaro Barreto - Memorial de Divinópolis)

Casa da Casca do Tamanduá, microrregião componente da sertania conhecida como Campo Grande da Conquista ou terras da Conquista. A Casa da Casca do Tamanduá era passagem e pouso de aventureiros que se dirigiam às terras do poente, mais especificamente Goiás. A descoberta de um ribeirão aurífero, que passava próximo à Casa da Casca do Tamanduá, que era receptor de águas do já conhecido ribeirão do Tamanduá, por volta de 1733.

Quando Estanislau de Toledo e Feliciano de Camargos, exploraram o ribeirão citado como Rio Vermelho. A denominação Rio Vermelho veio de um fenômeno que ocorre por ocasião de suas cheias e época dos depósitos do ouro de aluvião, quando ainda próximo às suas nascentes na serra da Candonga, ele atravessa um trecho de barrancos altos, ricos em óxido ferroso tingindo toda sua água de vermelho.
Em 1736, a Corte portuguesa autorizou a abertura de um caminho, uma "Picada", variante da Estrada Real, Rio - Ouro Preto, que tendo início em Vela do Príncipe (São João D'el Rei), passando por São José D'el Rei (Tiradentes), atingisse os sertões de Goiás. A sociedade Construtora desta Picada construiu uma variante do traçado da Picada que cortava de ponta a ponta o vale do Rio Vermelho cruzando a garganta do Andaime (Barreiro).

Às margens do Rio Vermelho em princípios de séc. XVIII, já existia povoamento no local citado, não aforado a nenhuma das primeiras vilas, criadas em Minas. Por esta época, a região e o lugar passaram a ser conhecido por: "Conquista do Campo Grande da Picada de Goiás" (Itapecerica).

Em 1744, o povoado já era um movimentado entreposto comercial e isto chamou a atenção dos oficiais da Câmara de São José do Rio das Mortes, Vila de São José D'el Rei, hoje Tiradentes. Em 18 de junho deste mesmo ano foi elevado à categoria (oficial) de povoado com o nome de São Bento do Tamanduá, conforme consta na certidão exarada pela câmara de São José do Rio das Mortes.

Em 20 de novembro de 1789, o povoado é elevado à categoria de vila, seu território foi desmembrado da Comarca do Rio das Mortes, tornando-se sede da comarca do Rio Grande, também nesta data.

Em 4 de outubro de 1862, pela lei provincial 1.148, é elevada à categoria de cidade como o nome de São Bento do Tamanduá. Em 19 de outubro de 1882, pela lei provincial 2.995, tem o nome mudado para São Bento do Itapecerica.

Topônimos

O falar indígena facilitava muito a união de dois ou mais nomes que formando um terceiro, criava um designativo, identificando lugar com um fato, um fenômeno natural ou ocasional. Entretanto a toponímica da região não se prende apenas à tradição indígena, possui também vínculos de nomeação, portugueses e africanos.

A Casa do Tamanduá, tida como a primeira identificação de um local específico, datou do último decênio do século XVII, é possível que tenha se originado de um pouso de tropeiros, pois era costume erguer pequenas taperas com cascas de árvores, principalmente do jatubazeiro à moda indígena de construir pirogas (canoas de casca). O jatubazeiro é ainda hoje, árvore comum na região. Tamanduá, nome indígena por excelência, designa um comedor de formigas, também chamado papa-formigas, que todos os relatos antigos afirmam ter sido muito comum na região, embora não o seja hoje.

O ouro foi a razão do surgimento do povoado, mas o que permite sua continuidade foi a ligação com a Picada de Goiás. De núcleo minerador, transformou-se em entreposto comercial, o último antes da entrada dos sertões do oeste. Itapecerica é também o nome do principal rio da região, cujo Rio Vermelho é sua nascente mais ocidental, percorre 104 Km antes de desaguar no Rio Pará, afluente do São Francisco. Em linguagem indígena significa Pedra Lisa e Escorregadia, que é uma característica do curso intermediário do rio, que corre sobre um leito de rochas graníticas, formando pequenas cachoeiras, deixando à mostra afloramentos da rocha. O povoamento que tem muita afinidade com este rio é o do Arraial do Espírito Santo do Itapecerica, hoje cidade de Divinópolis.

Da Casa da Casca do Tamanduá até a Itapecerica de hoje, decorrem quase trezentos anos de habitação contínua no local. Alguns nomes, principalmente acidentes geográficos foram mantidos. Exemplo: Rio Vermelho, Ribeirão Tamanduá, Ribeirão do Gama, Serra da Candonga, Serrado Brucutu, Serra do Prata, Serra da Andrezza, Serra do Calado (ponto mais alto: 1.150 m), Córrego da Cadeia. A nomenclatura de ruas e praças muda conforme os ventos da política: a antiga e colonial Rua Direita, é hoje Rua Vigário Antunes; o Largo do Armeiro, já foi João Pessoa, Melo Viana, hoje é Praça Dom José Medeiros Leite; o Beco dos Aflitos virou Rua Tomaz Gonzaga; o Beco do Tambasco é hoje Cel. Ozires Malaquias; a Rua da Cadeia que já foi também Janot Pacheco, é hoje Ribeiro Pena; o Largo do Triunfo hoje é Praça Severo Ribeiro. O Arranca Toco, nominador da região extremo oeste da cidade, continua, mas dentro dele algumas coisas mudaram: toda a região dos lavrados, que já foi também bairro do Açude até 1952, hoje é Bairro Nossa Senhora das Graças. O Largo do São Francisco continua, assim como a Praça da Matriz. Foi resgatado o Largo do pelourinho que já chamou mata-cavalos.

O nome Sucupira (comunidade rural pertencente à Itapecerica) provém de uma mata natural de Sucupiras, existente na região desde remotas eras, madeira de lei. A nomenclatura rural sofreu pouquíssimas alterações no decorrer dos anos. É possível orientar-se em antigos mapas, acompanhando a nomenclatura atual, com raras exceções, não houve alteração de topônimos.

Este texto foi condensado de uma pesquisa realizada por Carlos Gondim.

Bibliografia

História de Minas - Waldemar de Almeida Barbosa - Ed. Comunicação - 1979
História Antiga das Minas Gerais - Diogo de Vasconcelos - Ed. Itatiaia - 1974
Viagem às Nascentes do Rio São Francisco - August Saint-Hilaire - Ed. Universidade de São Paulo - 1975
O Sertão de N. S. das Candeias da Picada de Goiás - José Gomide Borges - Consórcio Mineiro de Comunicação - 1992
Minas Gerais em 1925 - Victor Silveira - Editado pela Imprensa Oficial do Estado - 1926
Reminiscências - Crônicas Selecionadas da Velha Tamanduá - José Bernardino Corrêa - Editado pelo Autor - 1951
Achegas à História do Centro Oeste de Minas - Leopoldo Correa - Pesquisas do A.P.M. (Arquivo Público Mineiro)